O caso do 'ó' com o copo

Anos 70, ditadura militar e o Brasil na "Era do milagre econômico ", os milicos mandavam e desmandavam, como senhores feudais; o ministro da educação Coronel Jarbas Passarinho falava em acabar com o analfabetismo e criava o programa Mobral, Movimento Brasileiro de Alfabetização, grande projeto do momento; na rádio, tocava sem parar a música de Tom e Ravel, dois cantores populares:

"...Eu tenho as minhas mãos domáveis e uma sede de saber, então me ensina a escrever...",

Saulo Silveira

Para grande comoção pública, e todo mundo ouvia com o coração piedoso, pronto para ensinar o be-a-bá.

A tarde caía, entrando pela boca da noite. Chico Duro, João Preto, Joaquim, Toizinho da Sá Jóve, Manuelão, João Roxo, Miquelino e eu estávamos reunidos na porta da casa do Mané Barrado, matuto curtido pela vida dura do campo, caboclo velho, encurvado, barba grisalha.

A conversa ia ganhando terreno, e eu, de repente, comecei a pensar como seria bom ensinar o pessoal a escrever ou pelo menos a assinar o nome, que dava direito ao título de eleitor, para poder votar (se bem que não para presidente, porque nessa matéria só votavam os militares)

E a conversa prosseguia em toada de boiada, aboiando os assuntos, Mané Barrado agachado pitando o cigarrinho de fumo goiano, coisa boa, coisa de bom gosto, cheirinho bom de fumo queimando no ar. Assentei bem o momento e comecei a conversa, falando pausadamente, explicando. Minha gente, temos que construir uma escola, levantamos uma casinha praquelas bandas, o governo está dando o material, não quer o povo analfabeto, quer o povão todo letrado, eu vou na cidade e falo com o prefeito e ele me dá o material, quadro negro, giz, livros, lápis, cadernos.

Então Mané Barrado se aproxima, olha nos meus olhos com jeito solene, e me fala:

-- Eu sei fazer um “ó” com o copo...

Saulo SilveiraOlhei pro matuto e vi dignidade naqueles olhos, fiquei matutando, sentado no toco de jacarandá, e olhava Mané Barrado agachado na minha frente, esperando pelas minhas palavras. Então mirei o Mané Barrado nos olhos e disse:

-- Então, homem, faz o “ó” com o copo!

Mané Barrado virou a cara na direção da cozinha, espichou os lábios e, soprando forte, gritou pra filha:

-- Maria das Dores, traz o copo, minha filha.

Lá de dentro escuto a vozinha doce e infantil, “já vai pai...”

E lá vem Maria das Dores, linda caboclinha, aos pulinhos, contente, enxugando o copo na barra do vestidinho. Era o único copo daquela casa, copo pra Mané Barrado beber a Januária, pinga boa. Mané Barrado adorava espiar a luz refletida no copo, pegou o copo de vidro e olhou contra o restinho de sol da tarde, depois emborcou no chão, pegou um carvão na fogueira ao lado e, com sacrifício, começou a riscar em volta do copo, as mãos trêmulas, incertas, tateando, tentando segurar o carvão com imensa dificuldade, o seu "ó" tomando forma. A caboclada juntou em volta, espiando admirada. Após algum tempo, Mané Barrado retira o copo do chão, vê a letra "ó" de sua autoria e olha para mim com orgulho e triunfo.

Aquietei as minhas vistas no desenho daquele homem, na mensagem, e fiquei pensando: este caboclo nunca teve um lápis na mão, nunca teve uma folha de papel nem instrução. Levantei-me com solenidade, olhei-o de novo e disse-lhe:

-- Olha, Mané Barrado, tu sabe fazer um "ó" com o copo, é um patrimônio teu, ninguém te tira este direito. Tu quando morrer vai ser enterrado com este patrimônio...

Vi que ficou emocionado , vi o quanto ele se sentiu feliz. E como foi bom eu lhe ter falado dessa forma. O tempo passa, passam as nuvens, o carcará passa, o jaburu, passa a passarada pelas bandas do céu, como a minha vida também passa e assim, cumprindo a sina do destino, fui morar no Rio de Janeiro, depois de uma mão cheia de tempo, trabalhando em agências de publicidade.

Saulo Silveira

Trabalhava duro e cada dia mais, querendo aprender; usava a ilustração da publicidade apenas para desenvolver a minha pintura e pintava com paixão; à medida que evoluía na pintura eu desprezava cada vez mais a ilustração publicitária; ia ganhando os meus cobres e torrava tudo em material de pintura e livros, guardando um pouco na poupança, para os dias de vacas magras.

Mas o novo governo civil do Brasil, em meio a uma crise econômica, tomou uma decisão inesperada e bloqueou a poupança dos cidadãos, na tradição autoritária, deixando-me sem o meu suado dinheirinho. Fiquei com um único patrimônio, eu mesmo, juntei as minhas coisas e vim para Lisboa como pude.

Cheguei trazendo apenas o meu “ó” com o copo, porque este patrimônio, o nosso saber, como disse daquela vez ao Mané Barrado, ninguém nos tira. Nada vale mais do que fazer um “ó” com o copo.

A arte é um eterno aprendizado e aperfeiçoamento espiritual.




Exposição Saulo Silveira"BEM HAJAM! Cores & Emoções", não é, seguramente, mais uma exposição de SAULO SILVEIRA! Esta é uma mostra carregada de sentimento, carregada de interioridade, carregada de simbolismo, verdadeiro atestado maior de uma maturidade criativa e plástica que já não surpreende! Antes, confirma a maioridade estética do Artista que cria, recria e desmonta os seus próprios conceitos e as suas próprias vias de conhecimento e expressão. Esta, bem poderá ser chamada... a Exposição! Porque não é mais uma. Porque é única. Porque é singular no seu percurso solitário e silencioso e marca de forma indelével a pintura contemporânea no nosso panorama cultural... Porque encerra, em si, todo um caminho, toda uma carreira e todo o mistério do coração e da alma do Pintor. Nela se reflecte a ansiedade e a insatisfação, a intranquilidade e a perturbação do nunca verdadeiramente atingido. Mas, nela vamos, também, encontrar o transfer dessas emoções, desses sentimentos, dessas vibrações, que brotam da paleta, saltam das telas e gritam ao nosso imaginário! É o Amor, a Alegria, a Felicidade de Viver, em raivas contidas e cores incontidas, fortes, intempestivas, impressivas, a tocar quem olha e a emocionar quem vê. Quem olha e quem vê, ao fim e ao cabo, o mais profundo do Ser Homem e Artista que é SAULO SILVEIRA.

Um brasileiro porque lá nasceu, adoptado português pelo coração, cidadão do Mundo, pelas suas peregrinações em busca de uma vida interior e de uma maneira de estar e de ser sem fronteiras e sem barreiras. Bom, eloquente e grande no gesto, na visão larga das origens, das raízes e da sua ancestralidade do outro lado de lá do Atlântico, SAULO SILVEIRA, soube merecer e assimilar a nossa lusitanidade da qual se orgulha e faz fé com militante convicção e optimismo. Os seus quadros são disso mesmo vivo testemunho, palpitante manifesto de reconhecimento, gratidão, generosidade e afectos. Os seus afectos, as suas emoções, os seus sentidos, a sua dimensão de Homem Solitário, mas Solidário, fazem-no percorrer a sensualidade dos corpos e dos nus femininos, com calor tropical, com o mesmo à vontade com que mimetiza a Festa de Toiros, na sua interpretação do esplendor mediterrânico.

Exposição Saulo SilveiraEsta nova exposição de SAULO SILVEIRA, que a Fundação SOUSA PEDRO, se orgulha de apresentar em pleno Chiado, genuíno coração cultural, histórico, boémio e tradicional da velha Lisboa, constitui um enorme, um sentido, um reconhecido, um dedicado BEM HAJAM!

A Todos quantos ajudaram a construir e a consolidar a obra do autor! A Todos quantos, de certo, ainda, ajudarão a consagrar internacionalmente o trabalho deste que hoje aqui nos reúne. A nós que, sem tibiezas ou falsos elogios, lhe agradecemos Tudo quanto nos tem oferecido, nos tem doado, como dádiva maior da sua Amizade Artística, para enriquecimento do nosso próprio Eu!

Vítor Escudeiro, da Academia Nacional de Belas-Artes e da Academia de Letras e Artes (Portugal)


Nova exposição na galeria Alberto Sarmento

No Rio de Janeiro, eu tinha um espaçoso atelier em Copacabana. Quando terminava de pintar, costumava colocar três telas grandes na parede, para analisá-las de todos os ângulos, confrontando-me com a minha pintura - eu na sala, eu nos quadros, - num exercício dialético de auto-conhecimento, na rota de grandes descobertas.
Naquela época, eu tinha uma empregada doméstica chamada Eva, um pouco analfabeta, que gastava o tempo soletrando as palavras da Bíblia, enquanto ia preparando a comida mineira lá da roça, feijão tropeiro, canjiquinha, frango com quiabo, santa cozinheira de mão cheia do interior das Minas Gerais, o meu estado natal. Depois de muito analisar as telas, eu chamava a Eva para dar a sua opinião de erudita e crítica de arte sobre aquela recente produção. Fazia-lhe duas perguntas, sempre as mesmas:

- Qual o quadro que você acha melhor? Qual o quadro de que você gosta mais, que lembra a sua terra, dá saudade da família?

Na primeira pergunta, a Eva atrapalhava-se toda, olhava um quadro, o outro, o terceiro, com duas bolas nos olhos, assustada e confusa. Na segunda pergunta, ela iluminava-se com rapidez e ria feliz, indicando logo um dos quadros, num genuíno gesto de sinceridade.

Galeria Alberto SarmentoA arte é o que nos emociona, faz brilhar os olhos, toca o coração. A arte não se explica, nem a minha nem a da Eva na cozinha.

A inauguração desta nova exposição terá lugar no dia 15 de Outubro, pelas 18h30, na galeria Alberto Sarmento, rua da Madalena, nº 215, em Lisboa.

O'GillinsQuem se portou bem na inauguração está convidado a continuar a festa pelas 22h30 no pub irlandês O'Gillins, rua dos Remolares, em Lisboa.


Ao tempo - 2005 - 180x140Exposição "movimento" na galeria Magia Imagem

O desenho sempre foi um meio para chegar à pintura. O que às vezes me interessa é fazer um jogo, uma bipolarização entre o desenho e a pintura, não me deixo prender ao desenho, porque ficamos presos atravês de traços. A questão da afectividade é deixar as emoções fluir e soltar o espírito, as pinceladas são emotivas pelo gestualismo, num estado de libertação do ego, de não-consciência.

Penso que o carácter de realizar, o acto da tarefa da consciência de pintar uma tela, é a convergência entre duas entidades opostas, consciência/não-consciência. Quando pinto um quadro tauromáquico, estou pintando as emoções, os gestos, o ritual, procuro às vezes sentir-me na pele do toureiro, entre a vida e a morte. O touro é um animal nobre, basta-me um grande borrão de preto, e já lá vejo o touro, o preto que violenta os conceitos. Tem um ponto de convergência muito forte, e cada pincelada transforma-se numa dança. Nestas pinturas, exploro a mente, como um acto teurapêutico, Um silêncio - 2005 - 180x140pela não-consciência, ou automatismo.

Somos animais pensantes e os nossos grandes pensamentos realizamos, quando não pensamos e nem calculamos. Há um acerta relação entre os traços ao colorir as pinceladas. Há muito tempo, referia que eram as veias que corriam nas telas, os riscos os nervos, sentia uma necessidade de jogar as minhas emoções nas telas atravês dos traços. Ainda nos meus tempos de liceu, quando era um puto, na ausência do professor na sala de aula, ia para o quadro negro, fazer desenhos e rabiscos, havia giz colorido. E pintar é um retorno à infância, desbloqueio a alma e às vezes sinto-me aquele puto rabiscando uma tela.

A ideia de veracidade vem da franqueza de pintar, exprimir atravês da pintura com autenticidade. Digo que correm rios de tintas, como num poema, então a veracidade vem da maneira de pintar com o próprio sangue num sentido metafórico, uma maneira de transcender a técnica, para que o virtuosismo da pintura se converta numa arte sem artifício.

Saulo Silveira


Desenho Cícero ManoelO Traço e o Gesto de Cícero Manoel

Cícero Manoel tem 38 anos, nasceu, vive e trabalha em Teresina, Piauí. Longe, portanto, da agitação cultural dos grandes centros.

Acontece que Cícero Manoel, o artista em pauta, é um excelente desenhista, dono de traço leve, criativo, raro num jovem que praticamente jamais saiu dos limites do seu estado natal, afora algumas participações em exposições coletivas de artistas piauienses em Fortaleza e Brasília.

Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí, nunca lecionou; por outro lado, deu vazão à sua evidente veia artística, elegendo o desenho como meio de expressão. Uma opção, aliás, que muito o credencia, não fosse o desenho a base de qualquer criação artística. Como dizia Mário de Andrade, "o desenho fala, chega mesmo a ser muito mais uma espécie de escritura, uma caligrafia, que uma arte plástica".

Cícero Manoel não é um artista que enfrente como desafio as grandes dimensões da tela ou do papel. Seus trabalhos, geralmente de pequenas dimensões, são até parcimônicos em relação ao traço; porém, observando-se atentamente cada um desses trabalhos, o artista praticamente consegue transmitir toda a sua emoção, sejam nas obras em preto e branco, sejam naquelas onde, através do nanquim, do lápis cera, do pastel oleoso e o lápis de cor, usa o colorido de maneira sensível e criativa. Sensibilidade, aliás, é o que não falta na obra de Cícero Manoel. Por isto encanta e atrai o olhar do espectador. Há uma enorme empatia entre seu trabalho e o público, isto é inegável.

Cada trabalho é uma lição de elaborada composição, minuncioso nos detalhes, impecável como técnica e revelando-o um atento observador de temas que lhes são caros, desde as igrejas do seu estado natal, às coisas que lhes rodeiam e que fazem dele um artista que fala do real, mesmo quando geometriza ou abstraia as formas.

Geraldo Edson de Andrade


Pintura Aparecida AzedoAparecida Azedo:
Retrato de uma lutadora

Uma vida de lutas. Assim pode ser definida a trajetória existencial da pintora Aparecida Azedo, enfoque de exposição no Museu Nacional de Belas Artes e de um livro escrito por Ivan Alves Filho. Uma vida de lutas, sim, em todos os sentidos: no particular, no trabalho e, principalmente, na pintura. Porque não é fácil ser artista naïf no Brasil, sabemos todos.

Primeiro porque a crítica de arte brasileira há muitos anos não lhe presta a mínima atenção, tão comprometida está com os mercadores de arte na divulgação de linguagens avançadinhas, uma vez que, pelo menos aqui, vanguarda não é nada daquilo que antecede e, sim, uma função acadêmica da arte.

Desde tempos imemoriais, nossos artistas de normas cultas têm que Pintura Aparecida Azedoestar ligados ao que seus colegas internacionais fazem em Londres, Paris ou Nova Iorque; segundo, quem é que se importa com um grupo de artistas autodidatas, sem status social, geralmente gente do povo, que estão fora do circuito elegante das galerias e que, principalmente, transmitem nos seus trabalhos uma profunda identidade nacional?

Tudo bem, nosso orgulho brasileiro foi sempre cotejar as novidades importadas, mesmo que artistas espontâneos como Chico da Silva (1910-1985) tenha conquistado premiação na Bienal de Veneza de 1962 e a pintora Lia Mittaraki (1934-1998) com sua visão paradisíaca do Rio de Janeiro figurasse na capa de revista norte-americana Time, por ocasião da Conferência Internacional de Ecologia, 1992. Lia Mitarraki foi a única artista brasileira a merecer essa honraria, sabiam?

Uma pintora como Aparecida Azedo, nascida numa pequena cidade paulista, Brodowsky (a mesma onde nasceu o grande Portinari)Pintura Aparecida Azedo e que desde cedo engajou-se em lutas políticas munida de coragem e fé deve ser uma ilustre desconhecida para a maioria dos críticos e estudiosos brasileiros de arte.Afinal, ela dedica-se a pintar o Brasil. O Brasil de sua história, de seus costumes, de sua fauna exuberante e dos seus contrastes sociais, o mesmo Brasil que está na literatura de José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, João Ubaldo Ribeiro e tantos outros autores e músicos como Luiz Gonzaga; Zeca Pagodinho ou Villa Lobos.

Claro, a visão de Aparecida dessa nossa terra que todos amamos é aquela de qualquer artista de sua linhagem, ou seja, uma visão onírica, visionária até, porque nela está inserida a sinceridade de uma alma simples que se empolga com a nossa paisagem amazônica, seus bichos e aves, com sua história oficial e suas lutas política-sociais. Tudo sem proselitismo e com certa dose de jacobinismo, sim, porque Aparecida Azedo, em cada tela que pinta, parecer querer deixar o seu testemunho de artista que se ufana do seu país, ao contrário dos seus colegas intelectualizados que nos quer transmitir justamente o contrário, pois discutem não o país onde vive mas, sim, aquele que eles gostariam de viver.

Geraldo Edson de Andrade

Ver também
Museu Internacional de Arte Naif do Brasil


Retrato Geraldo Edson de AndradeO crítico de arte e professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Geraldo Edson de Andrade, acaba de ser contemplado com o Prêmio Mário de Andrade concedido pela Associação Brasileira de Críticos de Arte, A distinção homenageia o crítico pela sua trajetória de mais de 30 anos na imprensa brasileira, não só na análise da arte no Brasil como igualmente sua atuação como ensaísta, com mais de 12 livros editados sobre diversos aspectos da arte brasileira. Geraldo Edson de Andrade, que é Presidente de Honra da entidade, tem abordado a obra do pintor brasileiro Saulo Silveira em diversos artigos publicados em Portugal, onde mora atualmente o artista.


Saulo Silveira - Paintings